Friday, December 15, 2006

Femme Fatale*

Há cerca de dois meses pensei fazer um post sobre ela - mas, entretanto, desapareceu. Esfumou-se. E não me apeteceu escrever sobre algo que já não existia.
Entretanto, ontem- regressava a casa já não sei donde. Ao descer aquela pequena colina continuo com o olhar viciado, de olhar sempre para a direita, para a procurar com o olhar.

(Apenas a vi um par de meses, e foi o suficiente para criar o hábito - ah, as pequenas grandes coisas.)

Olhar já desperançado -até ontem. OH! AH! Um suspiro como nos filmes, fechado entre as janelas do carro, respirado entre o ar condicionado e os olhos esbugalhados, surpresos

- afinal ela ainda não foi vendida!

Ela é uma combi. Um pão-de-forma. Uma carrinha volkswagen daquelas em pedaços. O que quiserem. Ela é linda

(e eu não ligo nenhuma a carros - mas ela é mesmo linda.)

Tem o porte e a graciosidade de muitos anos, talvez bem tratada, ou de vida dura. Verde por baixo, branca por cima. Com toda a dignidade e beleza que os sonhos lhe conferem.

Deve ser maravilhoso chegar aquela idade e ainda fazer gente sonhar, e sorrir, com hipóteses futuras.

"Ah", olho para ela e, "as viagens que não poderíamos fazer, as duas, até França! Forget about the past, just the road, just you and I". As noites frias não seriam tão frias

(mentira!! ehe)

ou seriam ainda mais frias, mas isso deixaria de importar. A felicidade não tem frio. E a aventura espera por nós. Bem como o vento seco (ou húmido, ou frio, ou gelado até) sobre a vegetação das dunas (em algum sítio há-de haver dunas, for christ's sake!), o sol a criar ondas de calor no asfalto, a sede extrema e o despertar intenso. Nada mais importaria. Ou pouco mais. Tudo seria um mundo paralelo - uma fuga, um escape, mas também um confronto. An alternative route. Uma viagem cansada e descansada, ao mesmo tempo.

Tu, com o teu motor decerto sonoro, contar-me-ias histórias das viagens que fizeste; e eu contar-te-ia histórias das pessoas que conheço e das viagens que ainda não fiz. De como a minha sobrinha gatinha e mia pela casa fora, como se fosse um gato, e se enrola no meu regaço como um pequeno felino. E dos meus amigos - que, incansavelmente, têm os braços abertos e os ouvidos disponíveis para contos e lamentos. Acariciaria o teu pneu suplente ao fim da tarde, hora em que o teu branco ficaria alaranjado, e contaria as moedas para telefonar para casa. Procuraria o teu melhor ângulo para te tirar fotos, pois é sabido que todas as coisas têm algum ângulo em que revelam toda a sua beleza; sendo que, às vezes, esse ângulo as torna irreconhecíveis, mas um ângulo é um ângulo, um fragmento de realidade, uma pequena instância. E as tuas imagens não te fariam justiça, bem sei. Seriam apenas contos estéticos.

O sol desapareceu atrás da chaminé do vizinho da frente, e eu penso em ti. Quanto tempo mais estarás à venda. Quem te comprará, o que fará contigo. Recordo-me daquele projecto de pegar em ti e irmos viver para perto de Lisboa, lembras-te? Viveríamos em frente ao meu hipotético trabalho, como num sonho americano, uma espécie de atrelado, bem, eu atrelada a ti, tu atrelada a mim, juntas para todo o lado. Talvez sejamos apenas uma (isto dos signos tem muito que se lhe diga), talvez eu seja tu e tu sejas mim.

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* ou como um tema de post (vulgo, uma carrinha) me deu vontade de ouvir Velvet Underground.

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este post não leva foto de nenhuma combi porque não há nenhuma combi mais bonita do que aquela que vi. E recuso-me a tirar-lhe fotografias, pois sairiam autoretratos.


(07/02/2005)