Era Novembro. A cidade nocturna energizava movimento, seres estranhos, cheiros fétidos e poesia. Prostitutas e proxenetas, vagabundos e violinistas, gente dos copos e ocasionais da noite. Mergulho na cidade, faço parte dela; de alguma forma, também ela faz parte de mim. Há uma simbiose - mas não nos completamos. Admiro-a, mas não a amo.
Caminhando por entre ruas e vielas, tento sempre descobrir onde está o mar, onde fica localizado, onde se entrega e se abre. Há uma festa, igual às festas que existem em qualquer parte do mundo, cheia de gente que fala de coisas nas quais não me consigo fixar. Encontro-me perfeitamente incapaz de me interessar ou dar continuidade a qualquer tema, toda a minha concentração escapa-se-me para o que me espera, no momento de libertação matinal que se seguirá a todos aqueles rostos estranhos, regados a álcool, que naquela casa celebram e revelam toda a nossa comum humanidade.
Há um jardim abandonado – processo a localização do mar distante – e tudo é um sonho. E tudo será um sonho até à madrugada despertar, até que gotas de água salgada me entrem pelas orelhas e olhos a horas inoportunas.
Até à hora do milagre.
Saio da festa, feliz por o cansaço não pesar em demasia. Pego no carro, ainda é noite, uma noite limpa e estrelar, fria como convém, e sigo para aquela praia.
A hora do milagre é múltipla e estende-se por inúmeros momentos. É a hora em que as pessoas das festas e dos bares entram numa dimensão paralela, quando acabam por se esquecer de quem são; e fazem coisas que, noutras circunstâncias, talvez não fizessem. É a hora do vómito, do último copo com os amigos, da derradeira tentativa de engate, do bocejo do barman. Do momento em que o espaço deixa de parecer tão bonito e as pessoas tão esplenderosas.
É também a hora em que ainda não há ninguém na praia. Há eu, naquele momento, e isso basta-me. Antes da primeira claridade chegar, por entre árvores do bosque e o sussurrar dos primeiros pássaros da manhã, há um momento em que o mundo pára –
- e convém estar em frente ao mar, caso o tudo termine realmente no agora. O instante em que se duvida, corporalmente, que o dia vá efectivamente nascer.
(E se ficássemos para sempre na pré-penumbra?)
A hora do milagre ali, hora do bêbado noutras paragens, o amanhecer no mundo inicia-se com uma ligeira ondulação, que se fazia ouvir à distância. Em êxtase religioso, saboreio a devassidão momentânea de uma meia maré, da brisa sideshore cristalina, do mar mais glass dos últimos tempos. Um coelho passa, fugidio, enquanto me preparo para a entrega total naquela imensidão de uma beleza gélida. O tempo pára, apesar do amanhecer continuar no seu ritmo. Atravesso-o e entro numa dimensão paralela.
Ninguém viu, e assim também eu duvido que tivesse acontecido.
Mais de duas horas de conversa sublime com todas as ondas que quisesse, que chegavam, preguiçosas, e rebentavam no pico com a prontidão de um relógio suiço. Fiz-me ponteiro e brinquei nos minutos, conversando também com a prancha e com ela admirando o amanhecer na falésia, as árvores que murmuram ventos, o carro que espero que não mo roubem. Continuo a deslizar, suavemente; olho para cima, para baixo, para os lados e em todas as direcções, olhando principalmente e atentamente com o corpo, com os pés que se firmam e se aguentam sobre o estado líquido. Sometimes you can see more with your eyes closed, como li esta semana enquanto fugia ao trabalho. Há realmente coisas que o corpo vê, os olhos não.
Uma onda mais passa por mim, primeiro debaixo, depois através, por fim dentro. Digo-lhe bom dia, mas ainda sem que ela tenha chegado, já estou na próxima. Sigo-a, beijo-a com a prancha, faço-lhe cócegas com os rails, estremeço com o que me ensina e permite ver – aquela sequência rápida e tão desejada, o som invisivelmente preenchido, que nos entra nos sonhos e não mais nos abandona ao longo da vida. Fecho os olhos e mantenho-os abertos para não perder nada, a doce abertura da verticalidade que se revela, o corpo que automaticamente se dobra e desdobra to fit in, naquele one size to fit all de puro deslumbramento.
Poderia continuar para sempre, mas o corpo com ausência de noite pede uma horizontal prolongada. Regressamos as três a terra, a prancha, a onda que nos conduziu, e eu. Despeço-me dela, curvando a cabeça e tocando uma última vez a superfície marítima, em sinal de agradecimento e respeito.
A maré havia subido, as ondas cada vez mais gordas, mais preguiçosas, e mais pequenas. Assim como eu, qual Alice no país das Maravilhas, ao regressar ao carro já não sabia qual o meu tamanho, se engrandecido pela experiência, se reduzido pelo cansaço. Talvez apenas o descubram aqueles que também conseguem passar para o outro lado do espelho.
*de Lewis Carroll, um livro também de - outras - viagens.
(17/08/2005)
