Friday, December 15, 2006

Soul Coffin*

Apesar das aparentes desvantagens, nascer numa família funerária não é tão mau quanto isso: os carros funerários têm as dimensões perfeitas para levar pranchas no - este sim - lugar do morto. Perante a silhueta da deathsurfvan, pode até surgir uma mistura de desconfiança e respeito, culminando no apelido de "anjo da morte".

Outro benefício são os contactos com os materiais. Enquanto as outras miúdas cresciam com laçinhos cor-de-rosa no cabelo, no meu refugiavam-se aparas de madeira. Cedo comecei a fazer as minhas próprias pranchas de balsa, e quando chegou o escândalo da Clark Foam, já andava eu há anos a fazer pranchas a partir de cascas de amêndoa, à semelhança dos caixões espanhóis.

Inicialmente, foi difícil convencer la família a aprovar esta prática: temiam perder-me demasiado cedo para o grande mar salgado, o que teria um impacto negativo no negócio familiar. Escondia quilhas e ferramentas nos caixões em construção, fazia capas com o cetim dos forros, utilizava cruzes como réguas. Foi inicialmente controverso pintar de azul uma das pequenas salas - o meu pequeno Céu -, o meu pai zangou-se por lhes chamar death boards®, minha mãe puxou os cabelos com o deck da minha primeira black beauty. Who cares. enquanto estivesse viva, arranjaria maneira de continuar a dar nas pranchas. Depois de morta, bem, também ninguém me poderia impedir. E com o passar do tempo, a familia aquidesceu.


Durante as férias de Verão, aprendi a evitar o crowd da época surfando apenas de noite. Não que fosse da minha preferência, até porque de noite não vendem gelados na praia - e eu gosto de gelados -, mas o negócio familiar é pequeno, e de dia tinha de trabalhar como coveira no cemitério da aldeia.

O mar nocturno tem os seus encantos, e menos dependentes nos tornamos dos olhos; como aprendi com Sunn, nele vivem os nossos ancestrais. E como aprendi às custas da minha própria experiência, também nele surfam.
Num primeiro amanhecer de nevoeiro, vi um cadáver dropinar um idiota cheio de autocolantes na prancha. Riu-se até chegar à areia, de mandíbula solta, enquanto o outro esbracejava, apanhava com a série toda na testa, perto perto do afogamento.
Passámos a chamar "funny games" a essas incursões nocturnas - chegámos até a pintar esqueletos nos nossos fatos com tinta fosfurescente, de forma a nos podermos vislumbrar durante noites de menos lua. Seria um estranho espectáculo, caso alguém nos visse: meia dúzia de adolescentes treslocados vestidos de mortos, a dropinarem mortos e vivos, a rirem-se que nem uns perdidos. A proximidade acabou por ressalvar em cumplicidade, fizémos alguns amigos entre os mortos, que nos ensinaram os truques que os vivos não tinham, talvez por falta de experiência, ou por falta de tempo para a adquirir.
Também com os mortos fizémos algumas boas viagens pelo norte. No único parque de campismo onde nos deixaram entrar, acordámos na manhã seguinte com o carro coberto de flores. Apanhámos um dos melhores swells dos últimos anos, e em sua honra ainda dei um piroso acabamento floral à última single fin que me saiu das mãos. Foi um sacrifício ter de conviver com narcisos amarelos durante 2 semanas, enquanto fazia os esboços do desenho. Primeiro, porque sou alérgica - e à custa de tanto espirro, as flores ficaram tão esborratadas como um Monet de 3ª categoria. Segundo, porque detesto pranchas com flores. Terceiro, porque a quantidade de pólen no ar transformou a minha sala do Céu numa mistura alucinogénica de amarelo com azul, formando remoinhos verdes consoante lhe dava a luz, e entre espirros e assombros acabei por passar esse tempo no maior delírio ao estilo de Hunter S. Thompson. A prancha, essa, de tão psicadélica, jamais a consegui vender.


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notas:
*Esses eram outros.
- Funny Games é também o título de um filme de morte.

(Este texto era originalmente dedicado ao Hunter S. Thompson.)

(23/02/2006)